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Manifesto Urbano De Alimentação Alternativa

Os olhos também comem

“Hoje a Natureza do campo encontra-se assediada, e é tão escassa na cidade, que se converteu em algo valioso”

Ian McHarg, em Design with Nature, 1969

 

Parque Hotícola da Quinta da Granja, em Lisboa

 

De acordo com a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), prevê-se que até ao ano 2030, 60% da população mundial irá estar concentrada em grandes áreas urbanas. O rápido crescimento das cidades nos países em desenvolvimento, em contraponto com o abandono de outras, dominadas pela actual situação económica, a somar às questões relacionadas com a perca de qualidade dos alimentos – imposta por um sistema cada vez mais industrializado – originaram uma situação, onde a agricultura urbana e peri-urbana, se apresenta cada vez mais como uma importante alternativa para a alimentação das  populações.

O fenómeno das Hortas Urbanas surgiu nos países do norte da Europa, durante a segunda metade do século XIX. Na Alemanha, um dos países pioneiros, existem Hortas Urbanas desde 1864, ano em que se criou a primeira associação (Schreberverein), em Leipzig. Na Dinamarca – o país europeu com a maior percentagem de Hortas Urbanas – esta tradição remonta ao século XVIII, existindo actualmente 409 associações de agricultores e jardineiros urbanos.

Jardim Urbano móvel, ecológico e comunitário em Berlim. Prinzessinnengarten é um jardim orgânico que faz parte de uma organização sem fins lucrativos dedicada a envolver as pessoas e a trocar conhecimentos e trabalho, ao mesmo tempo que promove uma vida sustentável. O jardim foi iniciado como um projeto piloto no verão de 2009 por Green Nômade. O sitio, que há meio século atrás era um deserto, neste momento é um paraíso para o cultivo de hortaliças.

 

Em Portugal, uma das figuras que mais tem insistido na importância da Hortas Urbanas é o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles (1922). Segundo Ribeiro Telles, em 1987, só em Lisboa existiam 3000 famílias que dependiam exclusivamente das suas hortas para não passarem fome. Para além dos alimentos, estas famílias ainda retiravam dois outros rendimentos das hortas, designadamente o dos crisântemos, que vendiam no dia de finados, e o dos manjericos que eram vendidos no mês dos santos populares.

Ribeiro Telles defende a integração da ruralidade no interior da cidade sobretudo por razões históricas e culturais, referindo que foi a partir da agricultura que a cidade nasceu. O espaço urbano permaneceu ao longo da sua história ligado ao espaço rural. A ruralidade faz parte da memória da cidade e da cultura das pessoas que nela vivem. Para Ribeiro Telles, a base da portugalidade encontra-se no mundo rural. E por isso a ruralidade deve continuar presente no espaço urbano. A identidade de cidades como Lisboa assenta, em grande parte, nas suas características rurais.

Para João Gomes da Silva (1962), a arquitectura paisagista não se deve reduzir à elaboração de uma imagem visualmente apelativa, destacando para além da dimensão estética, as componentes funcionais, ecológicas e culturais. Este arquitecto paisagista, que inclui frequentemente nos seus projectos de espaços urbanos e jardins privados pré-existências rurais e populares, defende que as tipologias rurais e as construções populares mudam assim de contexto e significado. Ao serem apropriadas e transformadas por uma cultura urbana,  através de um olhar erudito, configuram-se como entidades histórica e culturalmente significativas, adquirindo valor estético e artístico. Passam, assim, a estar associadas ao lazer mesmo quando mantêm a sua função produtiva. Gomes da Silva recorre a Duchamp para descrever e interpretar a sua própria metodologia, apelando à noção de ready-made: objectos do quotidiano que, ao mudarem de contexto, sendo expostos numa galeria ou museu, se constituem como arte.

Actualmente, vão surgindo cada vez mais situações, onde certas franjas da sociedade, praticam o cultivo de produtos hortícolas ocupando vazios deixados pelo atravessamento de grandes infra-estruturas rodo e ferroviárias, terrenos expectantes, taludes sem vocação urbanística, espaços de ninguém e sem valor aparente, originando o fenómeno das Hortas de Lata. Este fenómeno é o principal sintoma de um certo vazio doutrinário do planeamento urbano que tem vindo a menosprezar o elevado potencial da horta como elemento estruturante do espaço urbano.

Cabe ao poder político e económico, em diálogo com equipas de designers, arquitectos, arquitectos paisagistas, agrónomos, biólogos, urbanistas, engenheiros e até artistas plásticos, a criação de projectos estruturados que possam rever o desenho urbano, corrigindo e rentabilizando o solo, por forma a assegurar à cidade um desenvolvimento harmonioso e sustentável.

A Horta Urbana deve assumir um papel relevante na ocupação do território, numa simbiose entre a cidade tradicional e a cidade moderna. Onde o estado ao deter a totalidade dos espaços deve fazer uma divisão fundiária de forma a potenciar o aparecimento das hortas. Esta divisão fundiária deve ter em conta zonas de terrenos expectantes, vazios deixados pelas infra-estruturas ou cursos de água, taludes sem vocação urbanística mas, também espaços centrais da cidade elevando a horta a equipamento comunitário.

Neste sentido, a Horta Urbana dá à cidade um espaço que privilegia a interacção social, a qualidade ambiental e acima de tudo uma infra-estrutura de custos reduzidos e com um grande potencial de retorno na vida económica das famílias. A Horta Urbana é uma infra-estruturas de inovação urbana, com a possibilidade de conferir sentido e oportunidade a áreas negligenciadas e de difícil manutenção, dotando-as de zonas de lazer, espaços de articulação, convívio comunitário, acrescentando valor à vida nas cidades e à saúde dos seus habitantes.

Projecto da Câmara Municipal de Lisboa  para Hortas Urbanas na Alta de Lisboa

 

Bibliografia e Webgrafia

Farming in urban areas can boost food security, artigo consultado em: http://www.fao.org/newsroom/en/news/2005/102877/index.html

Hortas urbanas são prática mundial desde o século XVIII, artigo consultado em: http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7546

XAVIER, Sandra, Usos da ruralidade na arquitectura paisagista, Revista Etnográfica, Centro de Estudos de Antropologia Social, Maio, 2007.

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Agricultura e Alimentação – sistemas alternativos

O Homem está cada vez mais dependente da tecnologia para se alimentar. A ideia de lucro impôs-se às necessidades alimentares e ao respeito pela Natureza. Hoje em dia – produção e consumo – estão de tal maneira afastados, que já não se sabe de onde vem a comida.

Para reverter este processo é preciso mudar o paradigma actual. O design apresenta-se hoje como uma forma de pensar o mundo e, a par com a tecnologia, deixou de ser encarado como um fim, para passar a ser um meio de valorizar as pessoas, as relações sociais e a sustentabilidade.

John Thackara, jornalista e filósofo, tem sido um dos que mais tem escrito, sobre a forma como o design pode encurtar o caminho rumo à sustentabilidade. No contexto específico da alimentação, Thackara refere que o desafio do design é unir os diferentes recursos e oportunidades.

O equilíbrio ecológico de uma cidade é muito complexo, o que implica uma grande coordenação entre distribuidores, consumidores e produtores. Neste sentido, a agricultura urbana apresenta-se como uma importante parte dos programas de design de serviços e infra-estruturas, para fazer com que os centros urbanos sejam mais sustentáveis.

Um dos exemplos das ideias de Thackara é o projecto “Designers of the Time, aplicado em Middlesbrough, na Inglaterra.

Os objectivos deste projecto passavam por diminuir a distância entre o que as pessoas comem e o local onde os alimentos são produzidos, assim como a promoção de uma nova e mais saudável maneira de pensar as relações entre moradores e comida. Desta forma, com a ajuda de profissionais, os cidadãos passaram a plantar o seu próprio alimento em pequenos, médios e grandes espaços urbanos. Foram distribuídas caixas com terra, para serem postas perto das janelas das casas e cultivaram-se alguns terrenos livres dentro da cidade. Paralelamente, também foi criada uma Assembleia para a Alimentação que coordenava todo o projecto.

Esta experiência envolveu mil cidadãos e deu como resultado, no final do primeiro ano, uma refeição para 7 mil pessoas, preparada exclusivamente com alimentos produzidos dentro dos limites da cidade.

Refeição servida a 7 mil pessoas, no âmbito do projecto “Dott 07”, dirigido por John Thackara, em Middlesbrough.

Outro conceito que surge como uma alternativa aos actuais sistemas alimentar e agrícola – fortemente dominados pela indústria agro-química – é a Soberania Alimentar.

A Soberania Alimentar é o direito dos povos, comunidades e países a definirem as suas próprias políticas agrícolas, pecuárias, laborais, de pesca, alimentares de forma a serem ecológica, social, económica e culturalmente apropriadas às suas circunstâncias exclusivas. O que inclui o direito real à alimentação e à produção de alimentos. O conceito, proposto em 1996 pelo movimento internacional Via Campesina, só começou a ganhar protagonismo depois das manifestações de Seattle contra a cúpula da Organização Mundial do Comércio, em 1999, quando passou também a ser reclamado pela federação ambientalista Amigos da Terra.

Este conceito, que defende a agricultura orgânica em alternativa à industrializada, considera que a produção camponesa em pequena escala pode ter um elevado rendimento, ao mesmo tempo que usa menos combustíveis fósseis, especialmente se os alimentos forem comercializados local ou regionalmente. O investimento na produção orgânica familiar garante também por isso uma boa opção para lutar contra as alterações climáticas.

No âmbito da comercialização, o conceito também se apresenta como uma alternativa para quebrar com o monopólio da grande distribuição, apostando em mercados locais, venda directa, grupos de consumo agro-ecológico e cooperativas. Um dos exemplos deste modelo de produção e consumo é o sistema de Cesta Semanal.

Estes modelos privilegiam a proximidade no relacionamento – pessoal e comercial – entre produtor e consumidor, estimulam a confiança e o conhecimento mútuo, ajudam a fixar os preços com base no diálogo e promovem o consumo de produtos frescos e de época, o que também nos permite falar de um comércio justo local.

Cesta Semanal, um conceito de comercialização de alimentos frescos e de época.

Bibliografia e webgrafia:

THACKARA, John.  Plano B: O design e as alternativas viáveis em mundo complexo. São Paulo: Saraiva e Virgília, 2008.

Designs of the time (Dott 07) – http://seeproject.org/casestudies/Dott%2007%20-%20Design%20of%20the%20Time%202007

Dossier Soberania Alimentar – http://www.modevida.com/downloads/dossierSoberaniaAlimentar.pdf

Fórum Nyeleni Europa 2011: fortalecendo o movimento europeu pela Soberania Alimentar, – http://gaia.org.pt/node/16050

Filed under: Design, ONG's e sustentabilidade

Cadeia alimentar

O afastamento do Homem em relação à Natureza.  Frame do filme Food, Inc.

 

Na Natureza, uma cadeia alimentar consiste na permanente transferência de matéria e energia entre os seres vivos que constituem um determinado ecossistema. O Homem, desde cedo, desenvolveu a capacidade de modificar a sua cadeia alimentar através de tecnologias tão revolucionárias como cozinhar – utilizando o fogo – caçar com a ajuda de utensílios, cultivar a terra ou conservar a comida.

Durante os séculos XVIII e XIX, com o acentuado crescimento demográfico provocado pela consolidação do capitalismo e da Revolução Industrial, a produção de alimentos aumentou, provocando o crescimento da população, principalmente na Europa e nos EUA. Este fenómeno deu origem a algumas teorias, entre ao quais se destacou o malthusianismo. Esta teoria, criada por Thomas Malthus (1766-1834), economista e demógrafo inglês, foi a primeira teoria populacional a relacionar o crescimento da população com a fome, afirmando a tendência do crescimento populacional em progressão geométrica, e do crescimento da oferta de alimentos em progressão aritmética. Malthus, aponta como consequência da sua teoria: a fome, ou seja, a falta de alimentos para abastecer as necessidades de consumo do planeta, e as mortes, doenças, guerras civis e disputas por novos territórios.

A “Revolução Verde”, iniciada já no séc. XX, teve como grande objectivo resolver o problema da fome através do cultivo intensivo e da industrialização. Das 7 mil espécies de plantas que já constaram da dieta do ser humano, hoje restam pouco mais de 20. A alimentação básica diária da população mundial depende fundamentalmente de 8 cereais – trigo, cevada, milho, arroz, centeio, milho-miúdo, aveia e sorgo. O mesmo se passa com a pecuária, que se resume à produção de algumas espécies ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos), bem como à suinicultura, avicultura e piscicultura. Actualmente a “Revolução Biotecnológica”, com os designados seres transgénicos, foi apresentada também como a solução para resolver o problema da fome no mundo. Com estas revoluções, o Homem , diminuiu a variedade de espécies de plantas e animais da sua alimentação. O regime alimentar está cada vez mais uniformizado e as várias dietas tradicionais têm vindo a ser substituídas pela chamada dieta ocidental, caracterizada pelo aumento do consumo de carne, lacticínios, produtos processados industrialmente e pré-cozinhados.

No fim do século XX os nutrientes passaram a substituir a comida na visão popular do que significa comer. Actualmente, os alimentos são vendidos apenas com base nos seus benefícios para a saúde – ou porque reduzem o colesterol, ou porque têm muitas fibras. Os nutrientes tornaram-se mais importantes que a comida em si e o alimento passou a ser um simples intermediário na entrega destas substâncias. Hoje, toda a cadeia alimentar que mantém o Homem no seu topo – desde as plantas agrícolas, até às espécies pecuárias – está subjugada ao conceito de Fast Food. Uma refeição que se encontra no fim da cadeia alimentar industrial, iniciada num campo de milho do Iowa, é preparada pela McDonal’s e comida num carro em movimento.

À industrialização associa-se o controlo pela comercialização e distribuição dos alimentos, havendo actualmente grandes multinacionais que controlam a maior parte dos alimentos para consumo humano e matérias-primas para as rações animais. As 5 principais empresas que controlam a produção, transformação e distribuição de alimentos a nível mundial são a Monsanto, a Parmalat, a Nestlé, a Unilever e Asda Wal-Mart.

A relação do Homem com a comida está mudada. A indústria alimentar criou o falso mito de que, para sobreviver, o Homem não depende das outras espécies com quem partilha o Planeta. Hoje já não se sabe de onde vem a comida e o conhecimento da cadeia produtiva dos alimentos está a ser substituída pelo saber do lugar que os alimentos ocupam na prateleira de uma cadeia de supermercados.

É importante que se recupere o conhecimento da natureza e o poder de decisão sobre as escolhas alimentares e a melhor forma das preparar. Como diria Michael Pollan importa não comer nada que a nossa avó não reconhecesse como comida.

http://content.bitsontherun.com/players/46Oa1XrL-5Z0lSrn8.html

 

POLLAN, Michael, O Dilema do Omnívoro, D. Quixote, 2009.

POLLAN, Michael, Em Defesa da Comida, Manifesto de um consumidor, D. Quixote, 2010.

PAIVA, Jorge, A relevância da Biodiversidade, Jornal Quercus Ambiente, http://jornal.quercus.pt/scid/subquercus/defaultarticleViewOne.asp?categorySiteID=357&articleSiteID=2025

KENNER, Robert, Food, Inc.. 2008

 

Filed under: Antropologia e Cadeia alimentar

Agricultura e Sustentabilidade

Os primeiros impactes no ambiente começaram a sentir-se uma década e meia depois da Guerra. Foi também neste período que emergiu uma classe média com interesses na qualidade ambiental, ao mesmo tempo que começaram a aparecer os primeiros excedentes de produção agrícola e que surgiram novas pragas, face à resistência dos insectos ao uso generalizado de pesticidas.

Todos estes factores despertaram a opinião pública para as questões ambientais. Um dos marcos da revolução ambientalista e do surgimento de uma consciência ecológica foi a publicação, em 1962, do livro Primavera Silenciosa da bióloga Rachel Carson (1907-1964), que condenava o uso indiscriminado de pesticidas na agricultura.

O DDT (diclorodifeniltricloroetano), foi um pesticida muito utilizado, na altura da Segunda Guerra Mundial, como forma de protecção das tropas americanas, contra a malária – doença transmitida por mosquitos. Depois da guerra, a agricultura foi o motivo para dar saída às enormes quantidades de pesticida armazenadass e para manter em funcionamento as grandes fábricas que foram montadas para o produzir. O problema é que o DDT, quando usado em larga escala, não só matava os mosquitos nocivos, como também todos os insetos benéficos, como as abelhas e até mesmo os pássaros.

Aplicação de pesticidas em monocultura de alface.

Com o objectivo específico de chamar a atenção das nações para o facto de que a acção humana estava a provocar uma séria degradação da natureza e a criar graves problemas para o bem estar e para a própria sobrevivência da humanidade, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) convocou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que se deu em Estocolmo, no ano de 1972.

Nesta conferência emergiu o conceito de ecodesenvolvimento, em oposição à teoria que defendia o crescimento económico como a única condição necessária para o progresso. Aplicado ao sector agrícola, o novo conceito de desenvolvimento sustentável reflectia as idéias de que o desenvolvimento para ser sustentável deve ser, não apenas economicamente eficiente, mas também ecologicamente prudente e socialmente desejável. A definição para o conceito de agricultura sustentável, proposto em 1991, no âmbito da conferência de Hertogenbosch, pela Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), dizia o seguinte:

… “A agricultura sustentável é o manejo e conservação dos recursos naturais e a orientação de mudanças tecnológicas e institucionais, de tal maneira a assegurar a satisfação de necessidades humanas de forma continuada para as gerações presentes e futuras. Tal desenvolvimento sustentável conserva o solo, a água e recursos genéticos animais e vegetais; não degrada o meio ambiente; é tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente aceitável”.

Contudo, as particularidades dos diversos sectores produtivos dificultou a especificação do conceito. Hoje existem mais de uma centena de definições para agricultura sustentável, não sendo possível definir nenhuma como a mais correta. Basicamente a agricultura sustentável define-se em oposição à agricultura convencional, industrializada e dependente de aditivos exógenos. A seguir à Revolução Industrial, a simplificação da agricultura, adoptada por alguns sectores agrários no sentido de aumentar a produção de alimentos, veio provocar a perda da biodiversidade, que depende fundamentalmente da complexidade. O equilíbrio e a estabilidade de um novo sistema simplificado pelo Homem passam, portanto, a depender de uma permanente interferência do próprio Homem. O critério principal que permite identificar a agricultura sustentável é a integração  dos bens e serviços dos próprios ecossistemas no processo de produção, optimizando as condições existentes, adaptando as culturas ao clima e ao solo e beneficiando de sinergias entre os seres vivos que compõem o sistema agrícola. Deste modo, a agricultura sustentável pode reduzir o uso de fertilizantes, pesticidas e até mesmo sementes.

Diversidade de culturas, numa exploração de  agricultura biológica.

A dimensão económica e social da agricultura também é determinante para o conceito de sustentabilidade. Para isso o sistema agrícola tem de se adaptar às condições locais – introduzindo as mudanças necessárias provocadas pelas alterações contínuas – onde se satisfaçam as necessidades do presente, ao mesmo tempo que não se compromete o futuro.

A agricultura industrializada mede o seu sucesso apenas em termos de aumento da produtividade e da rentabilidade. A agricultura sustentável pretende produzir alimentos saudáveis, por pessoas saudáveis, num ambiente saudável.

Bibliografia e Webgrafia:

ROMEIRO, Ademar Ribeiro, Agricultura sustentável, tecnologia e desenvolvimento rural, ftp://ftp.sp.gov.br/ftpinstitutodeterras/sustentavel.doc

http://www.quercus.pt/scid/webquercus/defaultCategoryViewOne.asp?categoryId=631

SANTOS, José Lima, Conferências, Ambiente: Porquê ler os clássicos?, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 7 Out 2011

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Entre Alimentação e Comida

Nas sociedades primitivas, a alimentação era um acto natural e representava unicamente um papel de natureza nutricional. O Homem não produzia os alimentos, ou seja dependia do que caçava e daquilo que recolhia da natureza. Mesmo assim, as técnicas de aproveitamento do território, como a caça e a colecta, já se mostravam reveladoras da produção de um saber e de um conhecimento acerca do comestível, partilhado e acumulado entre grupos.

Com a descoberta do fogo, no Paleolítico Médio, dá-se o primeiro grande avanço tecnológico. No contexto específico da alimentação, o fogo permitiu ao Homem passar dos alimentos crus para os alimentos cozinhados. A modificação do cru para o cozido foi interpretada por Lévi-Strauss como o processo de passagem do homem da condição biológica para a social.

O início da actividade agrícola marcou o fim do Paleolítico e significou um momento de ruptura na história do Homem, que veio dar origem à sedentarização e ao afastamento do Homem da natureza e do seu estado selvagem. Há no entanto, em pleno séc. XXI, povos que ainda vivem em estado primitivo. Em Génesis, o mais recente trabalho de Sebastião Salgado, o fotógrafo refere que quase metade da superfície terrestre, ainda está como no ‘Primeiro Dia’. Através da sua câmara, Salgado, dá-nos um registo onde o Homem não rompeu de completo com as relações primordiais com a natureza e que pode participar da sua grandiosidade sem a destruir.

Bosquímanos do Deserto do Kalahari, Botswana, 2008, Sebastião Salgado 20″ × 24″ prata e gelatina

Nas primeiras definições de qualquer um dos dois, mais prestigiados, dicionários da internet, (http://www.priberam.pt e http://www.infopedia.pt) a palavra cultura está relacionada com a origem agrária do termo e refere-se ao cultivo da terra, lavoura e técnicas para obter produtos vegetais para consumo.

Com a agricultura, o Homem deixou de ser caçador colector, para passar a produtor dos seus próprios alimentos, domesticando plantas e animais. Nesse processo o homem administra e cultiva as sementes e pastoreia rebanhos, garantindo alimentação durante todo o ano. Agricultura e agropecuária tomaram formas bem expressivas na alimentação da sociedade. Com a programação da actividade agrícola e a preparação dos alimentos, a alimentação passa a ganhar um significado que vai para além da sua dimensão biológica. Podemos então começar a falar de comida.

Cozinhar é o gesto que transforma o produto da natureza em alimento fabricado pelo Homem, ou seja – em comida. Neste sentido, para Massimo Montanari, cozinhar é uma actividade humana por excelência – um símbolo da civilização e da cultura.

Em O cru e o cozido, Lévi-Strauss reforça a ideia do acto de cozinhar enquanto símbolo de civilização, apresentando-nos estas duas expressões com um significado metafórico para referenciar a oposição entre Natureza e Cultura.

Ainda de acordo com Montanari, os primeiros procedimentos relacionados com a preparação dos alimentos estão relacionados com a sua conservação. O uso do açúcar e do sal – substâncias que alteravam o sabor dos alimentos – esteve inicialmente na base de estratégias para prolongar a vida útil dos alimentos, ao mesmo tempo que conferiram uma dimensão social à comida, uma vez que o açúcar era um produto elitista, enquanto que o sal estava relacionado com a economia rural.

Os métodos de preparação dos alimentos indicam, acima de tudo, um desejo de melhorar o sabor da comida, proporcionando maior prazer ao acto de comer. Assim, o acto culinário, está directamente relacionado com a noção de ‘gosto’. A esta noção, Montanari, atribui dois sentidos: o gosto como sensação individual da língua e do palato e o gosto como um conhecimento – entre o que é bom ou mau – que nos é transmitido de acordo com os padrões culturais da sociedade à qual pertencemos.

Existem no entanto outros factores, para além da invenção da cozinha, que distanciaram a alimentação da comida. Há uma função social associada ao acto de partilhar uma refeição, que lhe confere um valor comunicacional que está para além da simples dimensão funcional. A comida, enquanto sistema alimentar, tal como a língua falada, encerra em si a cultura de quem a pratica, tornando-se por isso num depositário de tradições e identidade, ao mesmo tempo que se torna num importante veículo de auto-representação e de troca cultural.

Mas mesmo assim, o acto de cozinhar ainda pode estar para além de tudo isto. Depois de dominado o produto e a técnica de o transformar, a culinária de hoje também passa por proporcionar outro tipo de experiências. Recentemente foi apresentado um projecto que envolveu chefes de cozinha e um artista visual, que consistia em oferecer a um grupo de doze pessoas a oportunidade de entrar numa espécie de ópera culinária dividida em doze actos, em que se envolvem todos os sentidos em cada uma das dentadas que constitui a narrativa.

Instalação em forma de igloo dos irmão Roca, chefes de cozinha e Fran Aleu, artista visual.

Referências bibliográficas e webgráficas:

MONTANARI, Massimo, Comida como cultura, SENAC, São Paulo, 2008.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O cru e o cozido. Mitológicas. Vol. 1. São Paulo: Cosac & Naify. 2004.

Viagem ao primeiro dia do Planeta, http://www1.ionline.pt/conteudo/24883-na-unesco-sebastiao-salgado-apresenta-genesis-sua-nova-obra, Publicado em 26 de Setembro de 2009.

JOLONCH, Cristina, Los hermanos Roca y Albert Adrià trabajan para abrir los restaurantes del futuro, http://www.7canibales.com/?p=10642, Publicado em 7 de Março de 2012.

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Manifesto

Para que serve a comida? Ela não é apenas uma colecção de produtos que podem ser usados para estudos nutricionais e estatísticos. Ela é também, e ao mesmo tempo, um sistema de comunicação, um corpo de imagens, um protocolo de usos, situações e comportamentos. (1)

Roland Barthes

Partindo desta questão levantada por Roland Barthes, este manifesto pretende estabelecer na alimentação, um ponto de partida  para um conjunto de reflexões, no sentido de devolver ao Homem do Século XXI, uma consciência global que lhe permita uma perspectiva alternativa para um reencontro com a Natureza, meio do qual, ele se tem vindo a afastar, cada vez mais.

A alimentação é uma prática vital, sem a qual não haveria vida possível. A aquisição, processamento e consumo de alimentos é um processo partilhado por todos os animais e ao mesmo tempo específico do Homem. (2)

Para o Homem, para além do aspecto biológico, o acto de se alimentar implica também um valor simbólico. Os valores simbólico e biológico na alimentação estão directamente relacionados com cultura e natureza.

À medida que o Homem vai criando novos hábitos e práticas alimentares, na procura desses valores simbólicos, culturais e sociais, vai-se também afastando de si mesmo e do mundo natural a que pertence.

Partindo do conceito alienação em Marx, para explicar este afastamento, podemos concluir que quanto mais o Homem se apropria de hábitos pertencentes ao mundo social e cultural, exteriores ao seu mundo natural, tanto mais se priva dos seus meios de existência, pondo em causa a sua própria subsistência física. (3)

Esta é a explicação para o facto do Homem estar cada vez mais dependente da tecnologia para se alimentar, ao mesmo tempo que, numa relação directa, para o conseguir vai destruindo os recursos naturais que lhe são vitais.

O crescimento demográfico à volta dos grandes centros urbanos também pode ser explicado através do conceito de alienação. Para trás ficou a proximidade com a Natureza, característica dos meios rurais e o consequente afastamento de hábitos e práticas alimentares enraizados nas e a partir das culturas locais.

Por outro lado, todos os factores que tornaram o mundo mais plano – desde as invasões romanas no periodo a.C., passando pelos descobrimentos no Sec. XV, o êxodo rural no Sec. XVIII, até ao conceito de “aldeia global” de Marshall McLuhan no Sec. XX – contribuíram para a aproximação dos povos estabelecendo entre eles, o sistema de comunicação a que Roland Barthes se refere.

É por isso importante que se preserve a importância que a alimentação tem enquanto sistema estruturado de signos e códigos, da mesma forma que é importante, através de uma consciencialização ambiental e ecológica, provocar uma re-aproximação do Homem com a Natureza.

Pegando na frase do documentário “Home” de Yann Arthus-Bertrand – É demasiado tarde para ser pessimista – também é demasiado tarde para pedir às populações urbanas que regressem aos meios rurais. Segundo Gonçalo Ribeiro Telles, devia-se mesmo repensar o conceito de cidade. Isto é, em termos ecológicos, devia-se partir do princípio de que a cidade e o campo são fases diferentes de um mesmo sistema: uma não pode viver sem a outra. Ribeiro Telles chega mesmo a admitir que no Séc. XXI a cidade pontual deu origem à cidade região, tendo deixado de haver fronteiras definidas entre os espaços urbano e rural e adianta que uma cidade/região, onde a ruralidade e a urbanidade estejam interligadas é fundamental para encarar o futuro. (4)

Por fim e de acordo com o neologismo “Prosumer”, criado por Alvin Tofler, onde o homem é ao mesmo tempo, produtor e consumidor, poder-se-á também falar de uma sistema de alimentação alternativo em que, ainda de acordo com Marx em O Capital, os alimentos passam a ter um valor de uso, em vez de um valor de troca, ou seja, a capacidade que o alimento tem para satisfazer as necessidades do homem através do seu consumo. Esta capacidade resulta das condições naturais, das características das matérias de que o produto é feito e do trabalho concreto despendido na sua produção. O valor de uso está condicionado pelas propriedades físicas, químicas, biológicas e outras propriedades das coisas e também pelas características adquiridas em consequência da actividade humana dirigida a um determinado fim.

(1)    BARTHES, Roland. Pour une psycho-sociologie de l’alimentation contemporaine. In: MARTY, Eric (Ed.). Roland Barthes: Oeuvres complètes – Tome I: 1942-1965. Paris: Éditions du Seuil, 1993, p. 924-933 (1. ed. original 1961).

(2)    PERLÈS, Catherine, Les origines de la cuisine. In: Communications, 31, 1979. p. 4.

(3)    MARX, Karl, O Trabalho Alienado, in Manuscritos Económico Filosóficos. 1993. Lisboa. Ed. 70.

(4)    TELLES, Gonçalo Ribeiro, 1996, Um Novo Conceito de Cidade: a Paisagem Global. Matosinhos, Contemporânia Editora Ld.ª, Câmara Municipal de Matosinhos.

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Bem Vindo à Terra

Existe um facto sumamente importante relacionado com a Nave Espacial Terra, que é o de nenhum manual de instruções vir a acompanhá-la. (…) Esta falta de instruções forçou-nos a descobrir que existem duas espécies de bagos vermelhos – bagos vermelhos que matam e bagos vermelhos que alimentam. Antes de comer um bago vermelho tivemos de descobrir qual dos dois se tratava, pois de outro modo morreríamos.

Buckminster Fuller, em Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra.

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