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Manifesto Urbano De Alimentação Alternativa

Manifesto

Para que serve a comida? Ela não é apenas uma colecção de produtos que podem ser usados para estudos nutricionais e estatísticos. Ela é também, e ao mesmo tempo, um sistema de comunicação, um corpo de imagens, um protocolo de usos, situações e comportamentos. (1)

Roland Barthes

Partindo desta questão levantada por Roland Barthes, este manifesto pretende estabelecer na alimentação, um ponto de partida  para um conjunto de reflexões, no sentido de devolver ao Homem do Século XXI, uma consciência global que lhe permita uma perspectiva alternativa para um reencontro com a Natureza, meio do qual, ele se tem vindo a afastar, cada vez mais.

A alimentação é uma prática vital, sem a qual não haveria vida possível. A aquisição, processamento e consumo de alimentos é um processo partilhado por todos os animais e ao mesmo tempo específico do Homem. (2)

Para o Homem, para além do aspecto biológico, o acto de se alimentar implica também um valor simbólico. Os valores simbólico e biológico na alimentação estão directamente relacionados com cultura e natureza.

À medida que o Homem vai criando novos hábitos e práticas alimentares, na procura desses valores simbólicos, culturais e sociais, vai-se também afastando de si mesmo e do mundo natural a que pertence.

Partindo do conceito alienação em Marx, para explicar este afastamento, podemos concluir que quanto mais o Homem se apropria de hábitos pertencentes ao mundo social e cultural, exteriores ao seu mundo natural, tanto mais se priva dos seus meios de existência, pondo em causa a sua própria subsistência física. (3)

Esta é a explicação para o facto do Homem estar cada vez mais dependente da tecnologia para se alimentar, ao mesmo tempo que, numa relação directa, para o conseguir vai destruindo os recursos naturais que lhe são vitais.

O crescimento demográfico à volta dos grandes centros urbanos também pode ser explicado através do conceito de alienação. Para trás ficou a proximidade com a Natureza, característica dos meios rurais e o consequente afastamento de hábitos e práticas alimentares enraizados nas e a partir das culturas locais.

Por outro lado, todos os factores que tornaram o mundo mais plano – desde as invasões romanas no periodo a.C., passando pelos descobrimentos no Sec. XV, o êxodo rural no Sec. XVIII, até ao conceito de “aldeia global” de Marshall McLuhan no Sec. XX – contribuíram para a aproximação dos povos estabelecendo entre eles, o sistema de comunicação a que Roland Barthes se refere.

É por isso importante que se preserve a importância que a alimentação tem enquanto sistema estruturado de signos e códigos, da mesma forma que é importante, através de uma consciencialização ambiental e ecológica, provocar uma re-aproximação do Homem com a Natureza.

Pegando na frase do documentário “Home” de Yann Arthus-Bertrand – É demasiado tarde para ser pessimista – também é demasiado tarde para pedir às populações urbanas que regressem aos meios rurais. Segundo Gonçalo Ribeiro Telles, devia-se mesmo repensar o conceito de cidade. Isto é, em termos ecológicos, devia-se partir do princípio de que a cidade e o campo são fases diferentes de um mesmo sistema: uma não pode viver sem a outra. Ribeiro Telles chega mesmo a admitir que no Séc. XXI a cidade pontual deu origem à cidade região, tendo deixado de haver fronteiras definidas entre os espaços urbano e rural e adianta que uma cidade/região, onde a ruralidade e a urbanidade estejam interligadas é fundamental para encarar o futuro. (4)

Por fim e de acordo com o neologismo “Prosumer”, criado por Alvin Tofler, onde o homem é ao mesmo tempo, produtor e consumidor, poder-se-á também falar de uma sistema de alimentação alternativo em que, ainda de acordo com Marx em O Capital, os alimentos passam a ter um valor de uso, em vez de um valor de troca, ou seja, a capacidade que o alimento tem para satisfazer as necessidades do homem através do seu consumo. Esta capacidade resulta das condições naturais, das características das matérias de que o produto é feito e do trabalho concreto despendido na sua produção. O valor de uso está condicionado pelas propriedades físicas, químicas, biológicas e outras propriedades das coisas e também pelas características adquiridas em consequência da actividade humana dirigida a um determinado fim.

(1)    BARTHES, Roland. Pour une psycho-sociologie de l’alimentation contemporaine. In: MARTY, Eric (Ed.). Roland Barthes: Oeuvres complètes – Tome I: 1942-1965. Paris: Éditions du Seuil, 1993, p. 924-933 (1. ed. original 1961).

(2)    PERLÈS, Catherine, Les origines de la cuisine. In: Communications, 31, 1979. p. 4.

(3)    MARX, Karl, O Trabalho Alienado, in Manuscritos Económico Filosóficos. 1993. Lisboa. Ed. 70.

(4)    TELLES, Gonçalo Ribeiro, 1996, Um Novo Conceito de Cidade: a Paisagem Global. Matosinhos, Contemporânia Editora Ld.ª, Câmara Municipal de Matosinhos.

Filed under: Genérica

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