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Manifesto Urbano De Alimentação Alternativa

Os olhos também comem

“Hoje a Natureza do campo encontra-se assediada, e é tão escassa na cidade, que se converteu em algo valioso”

Ian McHarg, em Design with Nature, 1969

 

Parque Hotícola da Quinta da Granja, em Lisboa

 

De acordo com a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), prevê-se que até ao ano 2030, 60% da população mundial irá estar concentrada em grandes áreas urbanas. O rápido crescimento das cidades nos países em desenvolvimento, em contraponto com o abandono de outras, dominadas pela actual situação económica, a somar às questões relacionadas com a perca de qualidade dos alimentos – imposta por um sistema cada vez mais industrializado – originaram uma situação, onde a agricultura urbana e peri-urbana, se apresenta cada vez mais como uma importante alternativa para a alimentação das  populações.

O fenómeno das Hortas Urbanas surgiu nos países do norte da Europa, durante a segunda metade do século XIX. Na Alemanha, um dos países pioneiros, existem Hortas Urbanas desde 1864, ano em que se criou a primeira associação (Schreberverein), em Leipzig. Na Dinamarca – o país europeu com a maior percentagem de Hortas Urbanas – esta tradição remonta ao século XVIII, existindo actualmente 409 associações de agricultores e jardineiros urbanos.

Jardim Urbano móvel, ecológico e comunitário em Berlim. Prinzessinnengarten é um jardim orgânico que faz parte de uma organização sem fins lucrativos dedicada a envolver as pessoas e a trocar conhecimentos e trabalho, ao mesmo tempo que promove uma vida sustentável. O jardim foi iniciado como um projeto piloto no verão de 2009 por Green Nômade. O sitio, que há meio século atrás era um deserto, neste momento é um paraíso para o cultivo de hortaliças.

 

Em Portugal, uma das figuras que mais tem insistido na importância da Hortas Urbanas é o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles (1922). Segundo Ribeiro Telles, em 1987, só em Lisboa existiam 3000 famílias que dependiam exclusivamente das suas hortas para não passarem fome. Para além dos alimentos, estas famílias ainda retiravam dois outros rendimentos das hortas, designadamente o dos crisântemos, que vendiam no dia de finados, e o dos manjericos que eram vendidos no mês dos santos populares.

Ribeiro Telles defende a integração da ruralidade no interior da cidade sobretudo por razões históricas e culturais, referindo que foi a partir da agricultura que a cidade nasceu. O espaço urbano permaneceu ao longo da sua história ligado ao espaço rural. A ruralidade faz parte da memória da cidade e da cultura das pessoas que nela vivem. Para Ribeiro Telles, a base da portugalidade encontra-se no mundo rural. E por isso a ruralidade deve continuar presente no espaço urbano. A identidade de cidades como Lisboa assenta, em grande parte, nas suas características rurais.

Para João Gomes da Silva (1962), a arquitectura paisagista não se deve reduzir à elaboração de uma imagem visualmente apelativa, destacando para além da dimensão estética, as componentes funcionais, ecológicas e culturais. Este arquitecto paisagista, que inclui frequentemente nos seus projectos de espaços urbanos e jardins privados pré-existências rurais e populares, defende que as tipologias rurais e as construções populares mudam assim de contexto e significado. Ao serem apropriadas e transformadas por uma cultura urbana,  através de um olhar erudito, configuram-se como entidades histórica e culturalmente significativas, adquirindo valor estético e artístico. Passam, assim, a estar associadas ao lazer mesmo quando mantêm a sua função produtiva. Gomes da Silva recorre a Duchamp para descrever e interpretar a sua própria metodologia, apelando à noção de ready-made: objectos do quotidiano que, ao mudarem de contexto, sendo expostos numa galeria ou museu, se constituem como arte.

Actualmente, vão surgindo cada vez mais situações, onde certas franjas da sociedade, praticam o cultivo de produtos hortícolas ocupando vazios deixados pelo atravessamento de grandes infra-estruturas rodo e ferroviárias, terrenos expectantes, taludes sem vocação urbanística, espaços de ninguém e sem valor aparente, originando o fenómeno das Hortas de Lata. Este fenómeno é o principal sintoma de um certo vazio doutrinário do planeamento urbano que tem vindo a menosprezar o elevado potencial da horta como elemento estruturante do espaço urbano.

Cabe ao poder político e económico, em diálogo com equipas de designers, arquitectos, arquitectos paisagistas, agrónomos, biólogos, urbanistas, engenheiros e até artistas plásticos, a criação de projectos estruturados que possam rever o desenho urbano, corrigindo e rentabilizando o solo, por forma a assegurar à cidade um desenvolvimento harmonioso e sustentável.

A Horta Urbana deve assumir um papel relevante na ocupação do território, numa simbiose entre a cidade tradicional e a cidade moderna. Onde o estado ao deter a totalidade dos espaços deve fazer uma divisão fundiária de forma a potenciar o aparecimento das hortas. Esta divisão fundiária deve ter em conta zonas de terrenos expectantes, vazios deixados pelas infra-estruturas ou cursos de água, taludes sem vocação urbanística mas, também espaços centrais da cidade elevando a horta a equipamento comunitário.

Neste sentido, a Horta Urbana dá à cidade um espaço que privilegia a interacção social, a qualidade ambiental e acima de tudo uma infra-estrutura de custos reduzidos e com um grande potencial de retorno na vida económica das famílias. A Horta Urbana é uma infra-estruturas de inovação urbana, com a possibilidade de conferir sentido e oportunidade a áreas negligenciadas e de difícil manutenção, dotando-as de zonas de lazer, espaços de articulação, convívio comunitário, acrescentando valor à vida nas cidades e à saúde dos seus habitantes.

Projecto da Câmara Municipal de Lisboa  para Hortas Urbanas na Alta de Lisboa

 

Bibliografia e Webgrafia

Farming in urban areas can boost food security, artigo consultado em: http://www.fao.org/newsroom/en/news/2005/102877/index.html

Hortas urbanas são prática mundial desde o século XVIII, artigo consultado em: http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7546

XAVIER, Sandra, Usos da ruralidade na arquitectura paisagista, Revista Etnográfica, Centro de Estudos de Antropologia Social, Maio, 2007.

Filed under: Genérica

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